30.9.09

pensamentos vagos

olhares, um dia chuvoso, chuva fina, suave, quase véu,
um instante, brilho nos olhares, sente-se um calafrio,
uma revoada de pássaros sai voando, levando o pensamento,
voando em curvas, dançando com a sintonia do vento,
ao redor tudo parece mais extasiante, mais singular, menos breu!
chuva mansa, chuva que marcará para sempre uma primavera tão incomum,
gosto especialmente das florês,
porém, levar a lembrança da chuva é paradoxal.
sem o fervor de uma paixão,
é um desejo incomparável, sem denominações,
como se as palavras fossem inúteis, e as frases incompletas,
no calar da noite passar do ser que sonha a ser sonhado,
levar-se no vácuo do pensamento,
encontrar todos os desejos mais secretos,
na roda de pensamentos vagos.

(horetoyama/ sol/ itãu küsügü)

maria que ri...

foto: solange bouffay

diário de bugrinha

1925
22.1
O nome de um passarinho que vive no cisco é joão­ninguém. Ele parece com Bernardo.
23.2
Lagartixas têm odor verde.
2.3
Formiga é um ser tão pequeno que não agüenta nem neblina. Bernardo me ensinou: Para infantilizar formigas é só pingar um pouquinho de água no coração delas. Achei fácil.
23.2
Quem ama exerce Deus — a mãe disse. Uma açucena me ama. Uma açucena exerce Deus?
2.3
Eu queria crescer pra passarinho...
5.3
A voz de meu avô arfa. Estava com um livro debaixo dos olhos. Vô! o livro está de cabeça pra baixo. Estou deslendo.
5.6
O frio se encolheu nos passarinhos. Ó noite congelada de jacintos! Eu estou transida de pétalas.
7.8
O pai trouxe do campo um filhote de urubu. Ele é branco e já fede.
12.8
As garças descem nos brejos que nem brisas. Todas as manhãs.
10.9
Um sapo feneceu 3 borboletas de uma vez atrás de casa. Ele fazia uma estultícia?
13.9
A mãe bateu no Mano Preto. Falou que eu não apanhava porque não dei motivo. Subi no pico do telhado para dar motivo. Aqui de cima do telhado a lua prateava. A mãe disse que aquilo não era motivo.
19.9
Uma égua iniciava meu irmão. O pai ralhou com ele. Meu irmão foi entrando para inseto até desaparecer. Ficou dentro do mato até amanhã.
1.1
O Bernardo fala com pedra, fala com nada, fala com árvore. As plantas querem o corpo dele para crescer por sobre. Passarinho já faz poleiro na sua cabeça.
2.2
A mãe disse que Bernardo é bocó. Uma pessoa sem pensa.
5.2
Sem chuvas, já reparei, as andorinhas perdem o poder de voar livres.
29.2
Hoje o Lara morreu picado de cobra. Fizeram seu caixão de costaneiras. Meu avô encostou no caixão. Ué, eu que morri e quem está no caixão é o Lara! Meu avô enxergava mal.
2.1.1926
Catre-Velho é um ser confortável para moscas. Ele nem espanta algumas.
12.1
Choveu de noite até encostar em mim. O rio deve estar mais gordo. Escutei um perfume de sol nas águas.
1.3
As árvores me começam.
1.4
Uma violeta me pensou. Me encostei no azul de sua tarde.
10.4
Os patos prolongam meu olhar... Quando passam levando a tarde para longe eu acompanho...
21.4
Pensar que a gente cessa é íngreme. Minha alegria ficou sem voz.
22.4
Hoje completei 10 anos. Fabriquei um brinquedo com palavras. Minha mãe gostou. É assim:
De noite o silêncio estica os lírios.


(Manoel de Barros)

Extraído do "Livro Sobre Nada" (Arte de Infantilizar Formigas)




29.9.09

córrego jogui... ouço nossas risadas!

foto: solange bouffay

guavira


foto: solange bouffay

A fruta nativa que cobria boa parte do território de Mato Grosso do Sul e que desapareceu quase por completo, pode ganhar um impulso da ciência para resistir e virar uma cultura em escala comercial. Técnicos do Centro de Pesquisa e Capacitação da Agraer (Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural) trabalham em um experimento que avalia as melhores condições para o desenvolvimento de mudas de guavira, chamada uva do cerrado, pequena fruta de sabor adocicado.
A pesquisa é desenvolvida em parceria com a UFGD ( Universidade Federal da Grande Dourados) com recursos do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico).

A responsável pelo projeto, Ana Cristina Ajalla, conta que a busca é por variedades resistentes e produtivas. "O que se leva em conta nestas avaliações periódicas são características como a altura das plantas, o número de folhas, o tamanho das folhas e o diâmetro do coleto. No final das avaliações pretende-se identificar em qual tipo de substrato e com quais condições de luminosidade a planta se desenvolve melhor", explica Ajalla.

O experimento concentra-se no teste de seis diferentes tipos de substratos e de três níveis de luminosidade. Para realização da pesquisa foram plantadas 570 mudas.

A preservação da espécie é o objetivo principal que moveu os pesquisadores. "Para que não entre em extinção é necessário que a guavira saia da condição de extrativismo e passe a ser produzida comercialmente", ressalta. A previsão é de que o projeto seja concluído num período de três anos.

Após isso, a pesquisadora pretende iniciar novos estudos com a guavira. Um deles será feito por meio da coleta do fruto nas regiões de Campo Grande, Dourados e Bonito, com o objetivo de identificar as diferenças encontradas no desenvolvimento do fruto de uma região para outra.

Outro estudo se concentrará na análise das condições de germinação da planta. "A guavira é uma espécie que apresenta um alto nível de perda na etapa da germinação. O objetivo, com este estudo, será o de analisar se a espécie é suscetível a doenças e criar mecanismos para diminuir esta perda", conclui. (Com informações da assessoria)


Fonte: Midiamax / João Prestes

marias que ficam e outras que se vão...

foto: solange bouffay

Vó Maria

foto: solange bouffay